O Tendinista

Um blog voltado para todas as pessoas que vivem de mãos dormentes por causa dos incessantes rabiscos durante o decorrer de um estudo ou na criação de uma nova ilustra, mas que ainda conseguem arranjar tempo para assistir algum filme/série ou jogar algum game. Se você se identifica, meus parabéns, você é um tendinista!

Conto: Distrópico (Parte 1)



  Então, vejam bem, este é o primeiro conto que posto no blog. Antes de mais nada, quero deixar claro que o maior objetivo por trás da criação deste blog, foi para não apenas postar meus estudos de desenho mas também estudos de escrita, e eu estou considerando este conto como parte deste estudo. Sim, o texto nada mais é que uma parte de tudo o que venho praticado desde a criação deste blog, mas quero ver qual será o feedback para saber se prossigo ou não com esta história. Deixarei também algumas ilustrações (bem simples e tortas), apenas para ajudar na compreensão do leitor.

Distrópico

 “Distopia: lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação; antiutopia.”

-PARTE I-

 O toque das cinco; como era de se esperar, as cortinas e janelas começavam a se abrir automaticamente, embora emperrassem sempre na metade do caminho. Mal batia a luz do sol pela janela e o despertador já maltratava os ouvidos do rapaz que despertara pensativo e ambicioso, embora aquela barulheira toda ainda o deixasse ainda mais desesperançoso que o dia anterior. O pequeno holograma que mostrava as horas, junto a um solzinho sorridente surtia no rapaz uma irritação profunda a qual, em qualquer momento, culminaria em uma desinteressante explosão de raiva. Talvez, fosse a única coisa que mais o irritava antes mesmo de se levantar da cama que, a propósito, era a única mobília em bom estado daquele quarto velho. Um murrão seria o suficiente para desativar aquela porcaria flutuante, era o que o rapaz pensava, embora não pudesse o fazer, até porque a compra de um novo fugiria do seu orçamento deprimente.




– Desgraça de despertador. – murmurava o rapaz.

Virou a cabeça pesada para o lado; contemplava o corpo semicoberto da companheira enquanto a despertava com dois petelecos na perna. A mulher inspirou fundo, expirou devagar, ajeitou-se melhor na cama e tornou a cochilar.


O rapaz, Aiden (assim como era chamado), tornou a cutucá-la, desta vez mais forte; ela despertou. Após alguns agrados, a mulher, zonza e descabelada, correu para o outro cômodo aos cambaleios; Aiden pulou da cama, trotando para o banheiro. Após longos minutos os dois já haviam se reencontrado à mesa do café.


O olhar evasivo mas pensativo de Aiden e o degustar sóbrio da mulher naquele cereal vencido alimentavam ainda mais aquele silêncio desconfortante.

– Você sabe que é hoje, né? – disse a mulher, mal levantando o olhar para Aiden.

– Sim, termine logo o seu café. – respondeu Aiden.

– Não temos café.

Tanto faz.

Podemos fazer isso um outro dia.

– Café?

– Você sabe do que estou falando, não se faço de sonso. 

– Sim, Eve, eu sei que podemos fazer isso um outro dia, mas, até quando vamos ficar adiando isso? Não, não. Precisamos fazer isso hoje.

– Você diz que precisamos.

Um olhar vago; após uma longa baforada para cima, Aiden respondeu:

– E o que os Catadores vão pensar de nós? Que somos desertores? Tá pensando o quê? Sem a gente lá, vão cagar no nosso plano, e sabe em quem eles vão descontar toda a merda feita? Na gente, e se isso acontecer, já era o nosso respeito aqui, no morro.

Eve baforou de volta, quase cuspindo cereal:

– Respeito… É tudo o que você fala. Sempre a mesma merda. Quê respeito? Veja as condições em que vivemos, meu amor. Não temos mais dinheiro, nem para pagar a luz. O despertador é a única coisa acesa por aqui, e você quer me falar de respeito?

– É por isso que temos que fazer isso hoje, Eve. Se nem você tá aguentando ficar aqui, imagina eu.

Eve tornou a baixar os olhos; ficou alguns segundos em silêncio, mas logo falou:

– Não gosto disso, Aiden. Acordei com um péssimo pressentimento.

– Ora, você só está ansiosa. Olhe, se quiser eu posso te dar cobertura durante todo o tempo.

– Eu não preciso de sua cobertura, idiota. Se vamos fazer isso, preciso que você se concentre nos códigos, nada mais do que isso.

– Com isso não precisa se preocupar, amor. A gente pega a grana e rapa fora.

 
Prontamente, Eve desviou o olhar e tornou a comer (com muita dificuldade) o cereal.

– Vou ligar pra Christine. – ela falou. – Dessa vez ela me prometeu que cuidaria das coisas por aqui. Pelo menos, enquanto estivermos fora.

– É hoje que essa merda toda vai mudar, Eve, escreva o que estou te dizendo. – concluiu Aiden, puxando uma tigela de cereal e um revólver para si como se fosse a chave do carro.

[continua...]

Comentários